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Archive for January, 2012

Faz muito tempo que não posto nada por aqui. Irei postar mesmo sabendo que ninguém lê esses posts salvo os colegas e amigos que eu direciono e, eventualmente, algum conhecido. Prefiro postar minhas ideias em fóruns, mas quando sinto que os textos que escrevo tem valor de diário ou mesmo um registro de opinião muito pessoal publico-o por aqui para DEPOIS veicular em outros blogs os quais participo. Neste caso não farei de maneira diferente. Acho que o texto logo abaixo é muito pessoal para se levar a sério.

Estava para escrever esse texto faz tempo. Na verdade era a minha ideia desde o começo do semestre, mas não consegui arranjar tempo nem espaço para isso. Ironicamente as circunstâncias que me levaram a escrever tal texto não são das mais nobres. Talvez, até infantis por não conseguir aceitar como o mundo gira em torno de você e como as coisas mudam. Tal estado de idealidade que é proveniente, dizem alguns, de um estado infantil de ego.  Tenho certeza que muitos de vocês devem estar tentando adivinhar sobre o que vou falar. Certamente não é sobre Sakura Card Captors e como o mundo é cor-de-rosa.

O assunto que vou desenvolver ficou na geladeira tempo demais esperando uma boa oportunidade para sair. Tem haver com Mahou Shoujo. Para quem não sabe o que raios é isso eu explico. Mahou Shoujo é um gênero pelo qual desenhos japoneses (animês, duh) que são assim classificados por se referirem à temática de um grupo de meninas jovens ou jovens adultas, como nas séries mais antigas como Sailor Moon, que combatiam monstros e forças sobrenaturais malignas. Um modelo clássico tirado de séries Japonesas Live-Action. Essas séries tiveram sua origem devido ao sucesso da série A Feiticeira.

O que isso tudo tem haver com as ocorrências do seu dia-a-dia e com o fato de você ter se decepcionado com algo que você presenciou? Não muito, na verdade, pensando logicamente e com um raciocínio perfeito. Até porque o texto que estou escrevendo é apenas fruto de um delírio meu e, portanto, como já disse é uma reflexão puramente pessoal. Mahou Shoujo Madoka Magicaé um animê, do meu ponto de vista, pelo menos, que fala sobre as implicações de um contrato. Ele fala sobre sacrifício, mas esse sacrifício nunca é mostrado de forma positiva. A única personagem que tentou fazer seu próprio caminho [Sayaka] acabou morrendo em prol da própria ilusão de que ela poderia tornar um ideal em algo que pudesse ser levado ao máximo.

O problema é: em Madoka cada esforço lidera as personagens diretamente para uma conclusão ruim em direção ao seu fim. Kyubei explicita isso muito bem em seu discurso quando diz que a partir do momento que você estabelece o seu desejo você sela seu destino. Algo que se refere certamente a fausto e o tema de vender sua alma por um desejo.  O grande problema é que esse desejo, como esperado, trará eventualmente o seu fim. O sacrífico em Madoka, eu ouso dizer, é vão assim como qualquer esforço.  Qualquer ação tomada de maneira impetuosa acabará em tragédia, mas mais que isso qualquer atitude tomada com um objetivo nobre acaba em frustração e eventualmente em tragédia.

Alguns exemplos seriam suficientes para isso. Selecionarei dois exemplos de um mesmo caso que chamam a atenção pela sua força dramática: o caso da personagem Sayaka mencionado acima que deseja algo em prol de outro ser humano e sua sede por justiça. Ilusões que acabam a levando para a sua destruição. A sensação de desespero e impotência diante das possibilidades de ação é algo a se notar em sua trágica história. Existe um modo como agir para caçar as bruxas, mas esse método não permite salvar vidas, apenas esperar para que a bruxa cresça pela engorda de suas vítimas enquanto ela vai crescendo até despertar totalmente. Obviamente, há algo errado em um método desses considerando que supostamente sendo uma Garota Mágica (Mahou Shoujo) Sayaka deveria proteger pessoas e não esperar que a bruxa faça vítimas o bastante para poder abatê-la. O problema é: os objetivos do contratante são díspares do que é proposto inicialmente, mas ao mesmo tempo nenhuma mentira foi contada: luta-se pelo seu próprio desejo e você há de morrer com esse desejo, afinal, você pagou por ele com sua vida.

Não aceitando isso Sayaka acredita que poderia lutar por justiça. Sem talento, sem poder e muito impetuosa acaba cavando sua própria cova no processo. Fazendo movimentos imprudentes e tomando decisões ruins que a levam a coletar pouca energia limando as possibilidades de limpar a sua Soul Gem. Afinal, Sayaka lutava contra familiares e estes não dão o item o qual as Mahou Shoujo mais precisam para manter as suas Soul Gems limpas: as Grief Seeds.

Essa luta em vão contra todos os fatores, que chega a contradizer o bom senso e beira a imprudência, poderia ser visto como heroica pelo próprio discurso da personagem Sayaka que acredita em seus ideais deseja algo para outra pessoa que não ela mesma. Ela pretende sacrificar a si mesma em última instância, mas não consegue lidar com o fato de que seu martírio, sua luta fracassada e sem frutos possa ser menosprezada.

O mundo ainda gira de modo independente das vontades e ilusões, ideias e promessas. Todo tipo de fantasia é limado quando no episódio 8 da série após ver seu desejo pelo bem estar de um garoto ter sido em vão. Afinal, sua amiga que não sacrificou nada para chegar até ele consegue facilmente persuadi-lo a começar algo entre eles. Enquanto isso, Sayaka cujo sacrifício e o desejo revolviam sobre o garoto que teve um acidente que imobilizou suas mãos foi desperdiçado. O garoto abandonou o hospital logo após a recuperação, tratou-a mal e nem ao menos disse um obrigado pelos dias que passou com ela e pelo carinho e preocupação. Nenhuma palavra foi emitida.  Eu, particularmente, acredito que todos nós lutamos por algo que é certo, porém, o desespero e a insistência de Sayaka em um ideal e um padrão de um comportamento idealizado de defensora das pessoas comuns e dos fracos se originaram por parte do próprio desespero da mesma.

Eu explico com detalhes isso. Embora eu ache que esteja evidente que ela tenha perdido sua razão de existir e para suprimir isso tentou com todas as forças caçar algo pelo qual pudesse se apoiar, mas não conseguindo tentou se sustentar nas histórias de garotas mágicas que havia ouvido falar, dos contos de fada e das histórias de heróis. Infelizmente, por mais que a magia exista em Mahou Shoujo Madoka Mágica, como mesmo disse Sakura Kyoko, a magia é algo para uso pessoal. Ela serve para alcançar aquilo que uma pessoa deseja e não para ajudar os outros. Esse foi o grande erro de Sayaka. Tomar o milagre da magia como algo que pudesse ser transferido para outra pessoa, fazendo o seu desejo que seria a sua única razão para lutar, afinal, ela trocou sua própria alma em prol disso.

Esse arco apresenta um teor dramático bem desenvolvido fazendo com que o desespero seja exposto de maneira a deixar evidente que ela está cega pela sua própria necessidade de enxergar algo no qual ela possa se apoiar. Quando ela descobre que sua luta é algo que jamais será relevante em um nível consciente sua mente fica desconcertada. A última barreira de defesa entre sua sanidade e sua insanidade se dá quando ela escuta a conversa de um homem sobre sua própria mulher.

Ela que sacrificou tudo por ele, que o ama acha que está fazendo a coisa certa. Ele em contrapartida zomba disso. Algo similar com o próprio caso de Sayaka?! Eu arriscaria um sim nesse caso por ser bem próximo do que ela possa estar sentindo e de sua própria história. Pelo menos em parte. Indignada ela sucumbe e é revelado, por meio de sua transformação, na série de forma bombástica que as Mahou Shoujo são, infelizmente, bruxas e vice-versa. São apenas estados diferentes de uma mesma natureza e um tipo de energia. Um fim, particularmente, triste para uma personagem que tentou lutar contra a maré na esperança de se manter sã e sucumbiu à própria imprudência.

O mais irônico é que com isso sua morte, assim como a de Mami, que morreu no fim do terceiro episódio, é anônima. Luta-se por si mesma e morre-se só sem mais ninguém que a apoie ou possa entender o porquê a razão para lutar possa ser importante, afinal, ela é pessoal e intransferível. A razão é apenas sua e é seu dever encarar suas consequências solitariamente. Essa razão deveria ser o seu desejo, mas como ela abdicou de seu desejo por outra pessoa ela nunca ganhou algo em troca. Sendo assim seu destino foi sucumbir ao desespero. Perdendo sua razão de viver, embora ela não se arrependa de seu próprio desejo. Isso está dito na série, mas eu revogo essa visão, parcialmente, por saber que nada de frutífero veio de tal desejo e ele foi o estopim para seu fim trágico.

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